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Irmã Guiomar: sujeito principal e destinatária da evangelização na Vila Santa Marta
Ao assumir a opção pelos pobres, as Irmãs da Fraternidade Santa Marta, oferecem sua contribuição na construção de um mundo mais humano e cristão. A entreajuda, o companheirismo, o fazer juntos, são elementos que jamais foram esquecidos ao longo da caminhada, que teve por objetivo principal a criação de um espírito comunitário e de vivências comuns na busca pela dignidade humana.

O motivo inicial
Na década de 60 o empobrecimento das famílias, agravada pela falta de infraestrutura, vinha preocupando um grupo de moradores católicos da Vila Santa Marta. Estes, em nove de novembro do decorrente ano, reuniram-se e constituíram uma comissão provisória responsável por angariar recursos para a construção de uma capelinha. Desde então, o grupo começou a se reunir periodicamente para rezar e analisar os problemas existentes na comunidade, numa tentativa de buscar soluções viáveis a fim de minimizar as dificuldades dos moradores, principalmente no que se referia a fome e a marginalização social.
No ano de 1970, três crianças morreram de fome, e tal agravante despertou a atenção da Irmã Maria Amábile Zambenedetti, a Irmã Guiomar. Seu carisma franciscano alertou para o trabalho com aquelas crianças. A causa recebeu ainda o apoio das irmãs Cristina Noskoski e Ilda Ennemoser.
Irmã Guiomar, professora estadual recém-concursada não se limitou às aulas do Círculo Escolar Maria Dolores, sentiu necessidade de conhecer melhor a realidade em que viviam seus alunos. Ela e as colegas percorreram o bairro e constataram os problemas que as famílias possuíam: família numerosa sem condições mínimas de suprir as necessidades básicas da criança; nenhum ambiente favorável ao estudo; filhos mais velhos atendendo os pequenos, enquanto a mãe se ausentava de casa no intuito de ajudar no sustento da família e, consequentemente, faltas numerosas na escola e evasão escolar antes mesmo de concluírem a terceira série do ensino primário.
Irmã Guiomar sentiu ser urgente e indispensável um trabalho fora de sala de aula no sentido de ajudar as famílias a descobrirem seu valor, potencialidades, possibilidades de autoafirmação, promoção e entreajuda.
Inserção da Fraternidade na Vila Santa Marta
Neste período inicial, Irmã Guiomar morou na casa Provincial, e se locomovia diariamente para lecionar na escola Maria Dolores. Em 1971, aos exatos 16 dias do mês de fevereiro, as Irmãs Guiomar, Cristina e Ilda recebem a chave da casa que abrigaria a primeira fraternidade na Vila Santa Marta. Caixotes e tábuas doadas são transformados em prateleiras, guarda-roupas, biblioteca e farmácia.
A pobreza e a rudeza de suas paredes não assustam as irmãs, que prosseguem em busca da concretização de seus anseios “ser presença viva e atuante de fraternidade evangélica na Vila Santa Marta”.
Além do apoio da Fraternidade, as irmãs contaram ainda com o incentivo e ajuda do Pe. Irany Comin, que no dia 28 de fevereiro, através de uma celebração litúrgica integra oficialmente as Irmãs na comunidade.
Ao longo do ano as irmãs tiveram como grande objetivo: conhecer as reais necessidades do povo da Vila Santa Marta, e na pequena e rústica casa, passaram a oferecer um curso de malharia, coordenado pela Irmã Ilda Ennemoser. Irmã Cristina iniciou o trabalho com os jovens, e à noite, na Escola, ministrava as aulas do curso Mobral (alfabetização de adultos).
No decorrer destes anos, as irmãs dedicavam-se ao ensino na escola pública, catequese, reflexões bíblicas em grupos de famílias, grupos de jovens e atendimento ambulatorial, prestado pela Irmã Ilda Ennemoser, formada como auxiliar de enfermagem.
Mutirão garantiu a construção da primeira creche
O trabalho, aos poucos, foi ganhando reconhecimento e, em 1972, em sistema de mutirão foi construída a Creche São Francisco. Tudo foi doado, do terreno aos tijolos. Para a inauguração do novo prédio, em 1º de abril de 1974, uma missa campal foi celebrada pelo Pe. Osvino José Both. E, em 9 de abril, a Creche São Francisco já acolhia as primeiras crianças, cujas mães exerciam a profissão de domésticas.
A vida na Vila Santa Marta foi emergindo aos poucos. Os grupos de famílias acompanham a transformação, embora lenta e gradual, e apresentam novas exigências, com pedidos de novos cursos profissionalizantes, como: corte e costura, malharia, crochê, tricô, horticultura, marcenaria, pedreiro, bordado à mão.
Diante da oferta de novos cursos e assistência às crianças, vieram também as necessidades estruturais e materiais, e para isso o apoio e incentivo dos órgãos governamentais se fez necessário. Então surge a Sociedade Cultural, Recreativa e Beneficente São João Bosco – SOCREBE, uma entidade jurídica com documentos encaminhados e aprovados pelo Conselho Nacional de Serviço Social e Entidade de Fins Filantrópicos.
A importância da mística
Em todas as atividades desenvolvidas a mística sempre sobressaiu, enaltecendo o sentido religioso e espiritual de cada um. Conforme relatos das irmãs, esse foi o ponto mais exigente e cujos frutos foram bem mais lentos de se alcançar. “Como provar o amor de Deus diante de tanta fome, falta de roupa, casa e cuidados com a saúde, um direito de todo ser humano?”, relataram àquela época, embora tal questionamento faça muito sentido nos dias atuais.
A Socrebe desde sua criação, sempre esteve preocupada em desenvolver um trabalho alternativo e abrangente, que envolvesse a pessoa de forma integral, oportunizando atividades desde o bebê até o idoso. Como serviço pastoral tem se preocupado com o despertar da consciência cristã, aprofundando a espiritualidade das pessoas desta comunidade. Todo o trabalho esteve voltado e orientado pelos princípios cristãos.
As irmãs desta fraternidade mantiveram-se firmes e continuamente engajadas na luta pela transformação da realidade deste povo sofrido e oprimido.
Também coube às irmãs, preparar, coordenar e acompanhar a preparação dos batizados, catequese para a pré-crisma, crisma, pré-eucaristia e primeira eucaristia, cursos de noivos, encontros de famílias, a equipe de liturgia, além das celebrações e solenidades do Natal, Páscoa, Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia da Criança, Dia do Idoso, e outros.
Ampliação do espaço físico
Sempre preocupadas com as necessidades da comunidade da Vila Santa Marta, principalmente nos cuidados com o povo, as irmãs tiveram que, outra vez, buscar pelo aumento do espaço físico da Socrebe. Irmã Guiomar sempre lutou para conseguir recursos financeiros com os mais diversos projetos e parcerias.
Neste período já se fazia necessário um espaço para abrigar o clube de mães, os encontros dos jovens e casais, as aulas da catequese, entre outras atividades.
Novamente a comunidade foi convidada a ajudar. Um novo mutirão foi organizado, e o trabalho acontecia no período da noite e aos finais de semana. Neste processo alguns rapazes reconheceram o gosto pela profissão e passaram a sustentar suas famílias. Mesmo inacabado, o prédio começou a ser usado, e diariamente atendia em torno de 415 crianças, que recebiam além de formação geral, alimentação, vestuário, assistência médica e dentária. Ali também funcionou o clube de mães com 165 associadas. Diversas habilidades foram desenvolvidas através de cursos de corte e costura, tricô, crochê, bordado, higiene pessoal e caseira, educação religiosa, além de cozinha caseira.
As dificuldades
Para a implantação do projeto da Socrebe houve muitos êxitos e conquistas, mas, também muitas dificuldades foram encontradas pelo caminho. Além das carências financeiras, aquele povo sofria com as fraquezas do corpo e da alma.
A desigualdade econômica entre os moradores da Vila e os do centro da cidade; a falta de raízes culturais, sociais e religiosas, que parecia derrubar as famílias diante de qualquer imprevisto; a falta de consciência crítica; o medo de assumir as consequências de um trabalho que levasse a transformação e ainda o medo de assumir uma religião foram as maiores dificuldades encontradas pelas Irmãs no início desta caminhada.
O resultado
Grandes foram as preocupações para manter a entidade, mas a realização de um trabalho minucioso e digno resultou em bons resultados, principalmente por haver um grande número de pessoas que hoje vivem dignamente após terem passado e convivido na Socrebe.
A gratificação pelo trabalho realizado já foi sentido pelas Irmãs 19 anos após a inserção da Fraternidade na Vila Santa Marta, conforme a afirmação: “a eficiência e eficácia em nossa ação aparecem na organização das pessoas desta comunidade e nos passos que já deram rumo à própria libertação”, assinalada pelas Irmãs em um relatório encaminhado à Casa Provincial no ano de 1989.
Entre os resultados mais palpáveis destacam-se: a melhoria nas condições de vida das famílias da comunidade Santa Marta; o surgimento de novas lideranças; as famílias se reunindo em grupos para reflexões bíblicas; os cursos profissionalizantes; os grupos de dependentes químicos; grupos culturais e de formação humana.
Socrebe: quem te viu e quem te vê!
Atualmente a Socrebe atende em torno de 540 crianças e adolescentes nas mais diversas oficinas pedagógicas, dentre elas: jornalismo, leitura, teatro, informática, jogos de raciocínio lógico, arte e conhecimento, dança livre, gaúcha, street, ginástica rítmica, esporte, cerâmica, artesanato, educação ambiental, violão, flauta e coral. Atividades que são desenvolvidas pelos programas Asema Criança e Asema Adolescentes (Programa de Apoio Sócio-Educativo em Meio Aberto).
A Educação Infantil desenvolve diversas atividades recreativas e pedagógicas com as crianças explorando os mais diversos espaços lúdicos seja dentro da sala de aula como fora dela. Tem como prioridade o brincar e o educar.
O Programa de Orientação e Apoio Sócio-Familiar (POASF) é formado por uma equipe multidisciplinar que dá atendimento as famílias das crianças e adolescentes e faz os devidos encaminhamentos auxiliando as pessoas nos seus direitos e deveres.
A Socrebe conta hoje com um patrimônio que favorece a interação das crianças e adolescentes no seu desenvolvimento integral, social e cultural.
O reconhecimento
Quem visita a Socrebe, reconhece em cada sala ou corredor, no jardim e na horta, nos trabalhos e atividades desenvolvidas, nos adultos e nas crianças, os reflexos da missão abraçada por Irmã Guiomar e suas amigas, as irmãs Cristina Noskoski e Ilda Ennemoser. Tudo foi por elas sonhado, almejado, conquistado e criado.
As dificuldades foram meros degraus, subidos um a um, por Irmã Guiomar e pelas famílias da Vila Santa Marta, que acreditaram na proposta apresentada, que tinha por objetivo principal mudar a dura realidade daquelas famílias.
Na Socrebe, Irmã Guiomar é muito mais que uma professora, é a mentora de um novo projeto de vida, que deu certo e que hoje colhe muitos frutos.
