A ALPF homenageia o professor e advogado Ironi Gozzi de Andrade, um dos mais respeitados conhecedores do idioma pátrio em solo nacional. O título de Professor Emérito da 24ª Feira do Livro é um tributo ao seu trabalho como professor e, porque não dizer também porque é um grande divulgador de nossa cidade pelo Brasil e em alguns países da América latina.
Conheça mais o Professor:
Nasceu em Linha Segredo, interior de Encantado, hoje município de Arvorezinha, no dia 18 de outubro de 1951.
Filho de agricultores, Olavo Neves de Andrade e Santinha Gozzi de Andrade, desde seus primeiros anos dedicou-se à agricultura. Parentes e vizinhos ainda lembram sua infância. Irrequieto, com cinco anos, garantem, quebrando gelo com os tamancos, já era o companheiro de trabalho de seu pai, corroceiro. Saíam ao trabalho ia ainda alta a madrugada, por volta das quatro horas. Ele era o brequeiro. E assim, como agricultor, iniciou seus estudos na escola que leva o nome de seu avô materno, João Gozzi, de Linha Segredo. Nela, concluiu o curso primário. Por uma concessão especial do professor, aliás, repetiu o último ano, mesmo tendo sido sempre o primeiro aluno da turma, pois não queria parar de estudar.
Aos 12 anos, porém, teve de interromper seus estudos, pois não havia como deslocar-se até a sede do hoje município, distante 10 quilômetros e de dificílimo acesso: o lombo do cavalo era o meio de transporte.
Cinco anos depois, aos 17 portanto, ocorre um fato inusitado e que viria a mudar o rumo de sua vida.
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Arvorezinha, Luiz Cláudio Fornari, resolve retirar um jovem daquela localidade, levá-lo ao internato e, posteriormente, devolvê-lo, como professor normalista e técnico agrícola.
O hoje renomadíssimo professor Ironi Andrade, segundo ele mesmo confirma, falava tudo errado, muito errado. Dizia “mais mió”, para “melhor”; “mais pió”, para “pior”; “coiê mio”, para “colher milho”, e assim por diante.
Certa feita, apareceu por lá um livro de cartas. Eram textos para todos os fins: declarar-se apaixonado, acabar namoro, propor noivado, pedir mão de prenda em casamento, desfazer noivado, e por aí a fora.
Seu irmão mais velho e ele começaram a transcrever as cartas em um caderno a fim de melhorar a letra, que era muito feia. Nesse trabalho, ele viu que, onde usava “mais mió”, cabia o vocábulo “melhor”. Passou, então, a falar bonito “uma barbaridade”: “mais melhor” daqui; “mais melhor” dali, uma loucura!
Provando que ignorância pouca não valia nada, foi além. Ora, pensou, se “mais mió”, para ele, era “mais melhor”; “mais pió”, com certeza, seria “mais pelhor”. E ia ele: “mais melhor” pra cá; “mais pelhor” pra lá. Era um festival de ignorância!
Tornou-se, graças a isso, sacristão, puxador de terço aos domingos à tarde e até substituto eventual do professor. Afinal, ninguém falava como ele!
E a escolha do presidente do Sindicato recaiu justamente sobre o jovem que, naquela comunidade, falava “mais melhor”.
E lá foi ele rumo a Estrela, a fim de cursar o Normal Rural, em regime de internato, num tipo especial de preparação de jovens do interior que, depois de quatro anos de estudos intensivos e já preparados como normalistas e técnicos agrícolas, retornavam a seus locais de origem.
Mas, na Escola Normal, ocorre o fato mais curioso, certamente, de toda a sua vida. Nascido, conforme costuma dizer, “onde o vento faz a volta”, isto é, num fim de mundo, falava mal, escrevia mal e mal sabia ler. Depois de quatro meses, no final do primeiro semestre de aulas, a sentença: “O Andrade retornará ao Segredo, pois seu Português não tem mesmo conserto ou arranjo possível”. Sim, ele estava sendo desligado do internato, e condenado à ignorância total, porque seu desempenho em Língua Portuguesa era muito ruim, péssimo mesmo.
Todavia, aquele estudante raquítico, caipira e extremadamente tímido era excelente atleta. Diante disso, encontrou um protetor junto aos professores e à direção da escola, de cujo internato o estavam desligando: seu professor de Educação Física. Esse profissional pedira um semestre de tolerância a fim de ver se não haveria mesmo conserto, “pois o rapaz é esforçado”. Teve aceito o pedido, mas foi encarregado de dar a notícia ao atleta: “Foste desligado do internato hoje, porque teu Português é muito ruim. Eu pedi um semestre de tolerância. Foi-te concedido, porém com a advertência de que, se não consertares tudo até o final do ano, voltas ao Segredo plantar batatas”.
Aquele “plantar batatas” foi-lhe uma porretada no crânio. Pensou: não volto! Ante o desafio, reagiu e, ironicamente talvez, há mais de 35 anos ganha a vida ensinando Português, Redação, Literatura Brasileira e Oratória a verdadeiras multidões.
Vencido o desafio, concluiu seu curso na Escola Normal Rural Estrela da Manhã. No mesmo ano em que terminou os estudos, entrou em vigor a Reforma do Ensino, que extinguiu o campo de atuação daquele tipo especial de professor. Viu-se, então, portador tão-somente do Certificado de Conclusão do Ensino Fundamental. Não titubeou: inscreveu-se ao Exame de Madureza Ginasial, hoje supletivo, e, de uma só vez, em três dias intensivos de provas, eliminou todo o segundo grau.
Seu sonho, então, voltou-se à agronomia. A mesma pessoa que convencera seus pais a deixá-lo estudar fora, conseguiu que o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Arvorezinha custeasse-lhe o Curso de Agronomia, na condição de que, uma vez formado, retornasse àquele município e devolvesse, em trabalho, o valor investido. Em janeiro de 1972, sessenta dias após concluir o curso normal e trinta dias após concluir o segundo grau, viu seu nome no listão de aprovados em Agronomia. Por motivos políticos, todavia, a bolsa-de-estudos fora suspensa e ele não pôde matricular-se, pois seus pais eram pobres.
Foi aí que lhe surgiu uma idéia rara: cursar Letras e, com o salário de professor, mais tarde cursar Agronomia. Esperou até o mês de julho, fez vestibular e passou. Matriculou-se e, ainda no primeiro semestre da faculdade, inscreveu-se para preenchimento de vagas no magistério público do Rio Grande do Sul. Fora chamado e iniciou sua carreira no dia 23 de abril de 1973, em André da Rocha, então distrito de Lagoa Vermelha, hoje município.
Transferiu-se, depois de dois anos, para Lagoa Vermelha e, daí, para Sananduva. Em 1977, retornou a Passo Fundo, onde teve uma ascensão verdadeiramente meteórica, sobretudo depois de começar a lecionar em cursinhos pré-vestibulares.
Em Passo Fundo, lecionou nos cursinhos pré-vestibulares Integral, Visão, Gama e Michigan, até 1989. Em Porto Alegre, deu aulas no Mauá, no Unificado e no Universitário.
Foi nesse período que ele colaborou na produção de muitos livros didáticos, nos campos da Língua Portuguesa, da Literatura Brasileira e da Redação. Somam quase duas dezenas. Além disso, é sagaz cronista. Mas não publicou nada ainda no campo puramente literário. “Logo abortaremos alguma coisa”, destaca ele.
Mas sua busca cultural não se esvai com o curso de Letras. Depois de iniciar-se como professor público estadual, de escolas particulares, de cursinhos e de universidades, ele ainda encontrou tempo e forças para cursar Direito. Hoje, com a mesma desenvoltura, atua em ambas as áreas.
São incontáveis os cursos de especialização feitos pelo hoje professor Ironi Andrade. Em Português, em Redação, em Literatura, em Oratória e também no campo do Direito, ele está sempre buscando algo novo e algo a mais. “O profissional, que não se especializa, mofa”, garante ele.
Ganhador do Prêmio Competência, em três anos seguidos, por ser considerado o melhor professor do Estado do Rio Grande do Sul, presidiu o Comitê Pró-Implantação do Idioma Oficial do Mercosul, reunindo estudiosos do Brasil, da Argentina, do Uruguai, do Paraguai e do Chile.
Comendador pela Ordem dos Jornalistas do Brasil, grau Comunicação Social, foi presidente da Academia Passo-Fundense de Letras e escreve colunas regulares a vários jornais e a várias revistas. Manteve por vários anos programa diário sobre o idioma pátrio. Atuou durante um ano e meio, diariamente, com comentários de três minutos, na televisão por cabo. Apresentou, enquanto o tempo lhe permitiu, comentários sobre os erros mais freqüentes em Português na TV Câmara e foi, também, apresentador de “Dicas de Português” na RBS TV, Passo Fundo. É um dos palestrantes mais disputados, hoje, no Brasil e nos países do Mercosul. É figura quase obrigatória em congressos e seminários sobre Português, Redação, Literatura e Oratória, em todo o país.
Desde 1989, dedica-se a seu Curso Permanente de Português, Redação e Oratória, como diretor-proprietário e professor único, ministrando cursos em todo o Brasil.
Para mais informações, acesse: http://www.ironiandrade.com.br/
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